12. Método de acerto passo a passo
Este capítulo reúne a ordem do acerto, as regras práticas que evitam os erros mais comuns e o jeito de corrigir a tabela de VE sem perder o controle do que mudou. O funcionamento de cada função está no capítulo dela; aqui fica o método.
#A ordem do acerto
A VE é a última peça e a única que é do motor. Tudo o que vem antes é dado que você informa; tudo o que vem depois é correção em cima dela.
Um dado errado entra no cálculo de todo o combustível e, se for corrigido na VE, se esconde lá dentro. Por isso a ordem importa.

| Etapa | O que fazer | Por que vem antes da próxima |
|---|---|---|
| Base | Anote a versão do software e do firmware. Use como base o mapa que estava na VCU durante o log (Abrir mapa do log). | O arquivo em disco pode ser diferente do que rodou; corrigir sobre a base errada desfaz acerto. |
| Motor e combustível | Cilindrada, número de cilindros e combustível; com flex, o sensor de etanol lendo certo. | Entram como fator em todo o combustível. |
| Injetor | Vazão e pressão nominal de catálogo ou medidas, tempo morto por tensão e pressão, linearização. | Vazão errada dá erro igual no mapa inteiro; tempo morto errado dá erro que cresce no pulso curto. |
| Pressão de combustível | Sensor lendo certo; sem sensor, a opção do sensor desligada e o failsafe igual à pressão diferencial real. | A conta divide pela raiz da pressão diferencial: queda de pressão que a VCU não vê vira erro de VE. |
| Temperatura do ar | Sensor lendo valor físico; só então habilitado no modelo. | Desligado, vale o failsafe (25 °C de fábrica); habilitado com leitura errada, o erro vai para tudo. |
| Partida | Modo de partida de cada bancada e tabela de partida. | Em Tabela de injeção de partida a VE não participa do arranque. |
| Alvo conservador | Alvo de lambda rico na carga antes de rodar. | A conta divide pelo alvo: a VE medida não muda com ele, e o alvo rico põe mais combustível na carga enquanto a VE é acertada. |
| VE em regime | Cruzeiro por célula e passadas a fundo; medir o necessário por célula, corrigir amortecido, conferir a forma. | É a etapa que é do motor. |
| Alvo final | Alvo de lambda ajustado ao objetivo (potência, temperatura). | Mudar o alvo depois não exige mexer na VE. |
| Frio | Aquecimento e pós-partida. | Abaixo de 70 °C (padrão) a malha não corrige; o frio se julga com a VE quente já certa. |
| Transientes | Injeção rápida do VE. | A célula onde a pisada termina só mede VE em regime firme. |
| Aprendizado e acabamento | Atraso conferido, aprendizado, Diagnóstico e Aplicar na VE; só no fim Aplicar o LTFT aprendido. | Correção no limite acusa base errada; o aprendizado não sabe que a VE mudou. |
A malha pode ficar ligada desde a primeira rodagem, com Aplicar o LTFT aprendido desligado. Ela mede e corrige só dentro dos limites dela e não substitui o acerto da VE; leia o necessário com a correção dela incluída (seção Como corrigir, adiante).
Para o primeiro mapa convertido, siga o roteiro da primeira rodagem em Do mapa por tempo de injeção para o VE.
#Regras práticas
Trate as regras abaixo como prática recomendada: cada uma traz o porquê e o erro que evita.
#Ler o dado certo
- Regime é pedal e MAP parados; a rotação pode subir. A VCU só chama de transiente a variação de borboleta acima de 5 % ou de MAP acima de 0,05 bar, sem olhar a rotação. Uma passada a fundo com o pedal e o MAP parados é dado bom. Evita descartar toda a plena carga e deixá-la pobre sem saber.
- Alinhe a sonda pelo atraso, sem inventar precisão. A sonda vê a queima depois da injeção, e a VCU estima esse atraso no canal Malha VE - Atraso estimado, em milissegundos. Use esse valor e confira que a conclusão não muda com 0,1 s a mais ou a menos. Evita atribuir a uma célula a mistura da célula anterior.
- Com a malha ligada, quem ensina é a sonda junto com a correção. A malha já tirou parte do erro antes de a sonda ver. A tabela certa é a que deixa Malha VE - Fator da VE descansando perto de 1,000 (correção rápida perto de zero e, se o aprendizado estiver aplicado, ele também). Evita concluir que o erro sumiu quando foi a malha que o escondeu.
- Varie o eixo que separa as causas. Entre células de carga diferente o pulso e o MAP andam juntos, e o tempo morto se confunde com a forma da tabela. Fixe a linha de MAP e varie só a rotação: o pulso quase não muda, e o que variar é forma da tabela. Evita mudar a vazão do bico para achatar um erro que era de forma.
- Na célula onde a pisada termina, meça só em regime firme. Depois que a injeção rápida volta a zero, o combustível dela ainda chega à sonda com o atraso de transporte, e o que molhou a parede evapora depois. Como prática, use as amostras a partir de 1,5 s, de preferência 3 s, depois do último disparo. Evita levar para a tabela uma sobra da injeção rápida.
#O que não é VE
- Erro igual em toda a faixa é vazão, pressão ou combustível. Um fator único sai da vazão, da pressão nominal do bico ou do estequiométrico; escrito na VE, ele tira o significado físico da tabela. Evita uma VE que só fecha com o bico declarado errado.
- Tempo morto alto e VE baixa parecem iguais na média. O tempo morto é somado em milissegundos no fim do pulso, então o erro dele pesa mais quanto mais curto o pulso. Separe pelo tempo útil e corrija tempo morto e VE juntos, preservando a entrega onde ela já está certa. Evita uma VE baixa que compensa tempo morto alto, certa no pulso longo e errada na lenta.
- Diferença entre bancos não se corrige na VE. A VE é uma tabela só, e a malha usa uma sonda: a média das sondas selecionadas. Erro só na lenta, que some com carga, aponta para entrada falsa de ar num lado; erro proporcional em toda a faixa aponta para bico ou tempo morto desbalanceado, que se corrige no ajuste individual por cilindro. Evita entortar a VE do motor inteiro por causa de um lado.
- Sensor sem leitura deixa o modelo cego. Sem a leitura, a conta usa valores fixos de pressão e de temperatura do ar, e a queda de pressão em carga ou a mudança de temperatura viram erro de VE. Deslocamento do mapa inteiro que acompanha a temperatura do dia aponta para o ar, não para a tabela. Evita acertar a VE para o clima de um dia.
- Etanol: confira antes de comparar logs. Sem sensor de etanol o estequiométrico é fixo, e cada ponto de etanol a mais no combustível muda o estequiométrico em 0,4 a 0,6 %, conforme a faixa. Com sensor, a conta usa o combustível da mistura, e o aprendizado para quando o etanol varia mais de 2 pontos em 10 s. Evita ler como mudança de VE uma troca de combustível.
- VE baixa em vácuo pode ser real. VE é o ar admitido comparado com a densidade do coletor. Com vácuo profundo e comando bravo, valores baixos em vácuo podem ser legítimos. Confira pelo consumo antes de mexer. Evita consertar a lenta por intuição e deixar a transição pobre.
#Como mexer na tabela
- Onde você não mediu, deixe rico. Fora do eixo a VCU usa o valor da borda e, por dentro, interpola: célula sem dado é estimativa. O Aplicar na VE também não extrapola. Evita empobrecer onde ninguém mediu.
- Corrija amortecido e só com massa de dado. O resíduo de um log é ruidoso. Corrija a célula com muito dado e sinal repetido em pelo menos dois logs; célula cuja medida muda de sinal fica para a próxima rodada. Evita perseguir ruído.
- Correção no limite é tabela errada, não ganho. O limite diz que a tabela pede mais do que a malha pode dar; ganho maior só chega mais rápido ao mesmo limite. Conte o tempo parado no limite, não o tempo com sinal negativo. Evita mexer no controlador quando o problema é a VE.
- Na pisada, a malha leva a correção que tinha. Em transiente a correção fica congelada; quando o motor anda uma célula, ela solta para o valor do ponto novo com constante de 1 s. Se a carga leve está rica, a pisada começa com correção negativa e empobrece a plena por um instante. Evita empobrecer a plena ao corrigir a carga leve.
- Remédio para a pisada pobre. Ligue Somente enriquecer acima da pressão definida, ou use limite negativo pequeno nas colunas de carga em Limites da correção rápida (STFT) por MAP, que vale mesmo com a correção congelada. Se for tirar VE das linhas de pressão positiva, faça isso no mesmo mapa em que aplica um desses remédios. Evita que o corte de VE e a correção negativa se somem na plena.
- Confira a forma antes de gravar. A VCU interpola, então valor absurdo numa linha que não roda contamina a vizinha. Como regra prática, a VE não cai quando o MAP sobe: queda nesse sentido, ou degrau grande entre linhas vizinhas, é suspeita e pede conferência. Quando a queixa cai entre duas linhas, ajuste os nós juntos, não célula por célula. Evita uma correção que fecha no ponto medido e estraga o vizinho.
- Tirar um fator do mapa inteiro expõe as células de transição. Células acertadas em cima do excesso ficam pobres na mesma proporção, e a transição da lenta para a carga não tem malha que a salve. Antes de entregar, confira as pisadas do log anterior e corrija junto a linha de transição. Evita trocar um mapa rico por uma transição pobre.
- Injeção direta não tem filme de combustível no coletor. Falha ou tiro na pisada, em injeção direta, aponta primeiro para a VE da transição. Célula com falha de queima não se mede: suba pelo lado rico e meça no log seguinte. Evita procurar na injeção rápida um erro que está na tabela.
#Ordem e controle
- VE é do motor; o alvo é escolha sua. O combustível é proporcional a VE ÷ alvo. Para mistura mais rica numa condição, mude o alvo de lambda; os percentuais servem para repor combustível que não chega ao cilindro (parede fria, transiente). Evita misturar escolha de mistura com medida do motor.
- Zere as compensações de regime na faixa em que a malha atua. Com a malha ligada, compensação de aquecimento acima da temperatura mínima da malha, de marcha ou de ações externas aparece como erro: a malha a desconta até o limite dela, e o aprendizado grava o desconto na VE. Mistura diferente de propósito vai no alvo de lambda (veja Enriquecimentos e compensações no modo VE). Evita uma VE que fica pobre quando alguém desliga a compensação.
- O frio se julga contra o alvo da tabela, com a sonda válida. Sonda em 0,000 é leitura inválida, não mistura pobre. Ligue o log antes da chave e julgue a partida com pelo menos 3 partidas frias e um sinal que não seja a sonda (tentativas, motor que apagou). Evita confirmar ou refutar uma queixa de partida com um log só.
- Carro que não pega em VE: olhe a partida, não a VE. Em Tabela de injeção de partida, o pulso do arranque sai da temperatura do motor. Em Tabela principal de injeção, o arranque usa as colunas de rotação mais baixa da VE: ao refazer a grade, não deixe a coluna de rotação mais baixa com VE menor que a seguinte nas linhas de pressão atmosférica. Evita mexer na VE por um problema de partida.
- Confira atraso e parâmetros herdados antes do ganho. Mapa trazido de versão anterior pode ter Constante de transporte do escape em 1,5, que prende o atraso no teto e deixa a malha lenta. Confira também Faixa de temperatura do ar para aprender (padrão 15 °C em torno da Temperatura do ar de referência da VE, 30 °C de fábrica): com o sensor de ar lendo, o aprendizado só acontece com o ar dentro dessa janela, e um valor pequeno o bloqueia sempre que o ar sai dela. Evita mexer no ganho de uma malha que só estava mal configurada.
#Réguas de campo
Os números desta seção são pontos de partida, não especificação. Cada um vem com o porquê, para você ajustar ao seu motor.
#Tempo morto acima de 35 % do pulso
Pulso curto é território do bico, não da VE.
O tempo morto é somado em milissegundos no fim de cada pulso. Se ele está errado, o erro chega ao combustível multiplicado por r ÷ (1 − r).
r = Deadtime dos injetores A ÷ Tempo de injeção A
tempo útil = Tempo de injeção A − Deadtime dos injetores A
erro de mistura = erro do tempo morto × r ÷ (1 − r)
r é a fração do pulso que é tempo morto. Os dois canais estão no log; a conta cabe num canal calculado.
| Tempo morto no pulso (r) | Multiplicador r ÷ (1 − r) | 10 % de erro no tempo morto vira |
|---|---|---|
| 10 % | 0,11 | 1,1 % de mistura |
| 20 % | 0,25 | 2,5 % de mistura |
| 30 % | 0,43 | 4,3 % de mistura |
| 35 % | 0,54 | 5,4 % de mistura |
| 50 % | 1,00 | 10 % de mistura |
| 60 % | 1,50 | 15 % de mistura |
Como ponto de partida: onde o tempo morto passa de 35 % do pulso, não corrija a VE pela sonda.
O 35 % é escolha de tolerância: aceita cerca de 5 % de erro de mistura para cada 10 % de erro no tempo morto. Quanto menos você confia na tabela de tempo morto do seu bico, mais baixo deve ser esse limite.
Meça a fração por célula, no log. Não deduza pelo MAP: em carga leve uma linha inteira pode passar do limite.
Em Multiponto, em motor a pistão, cada pulso leva metade do combustível e o tempo morto inteiro: a zona de pulso curto fica maior que em Sequencial.
#Pulso útil curto
O bico também deixa de ser linear em pulso muito curto, e o quanto depende do bico. Trate como curto o pulso útil abaixo de 1 a 2 ms, conforme o bico.
Pelos dados de bico que o FuelTech Vision traz, a não linearidade some acima de 2 ms. A 0,75 ms ela fica perto de 10 % num bico de 80 lb/h de alta impedância e passa de 30 % num bico de 520 lb/h ou maior, de baixa impedância.
Um corte fixo em 0,75 ms, portanto, só serve de triagem para bico pequeno.
Com bico de alta impedância, o limite de 35 % de tempo morto já deixa de fora praticamente toda a faixa não linear. Com bico grande de baixa impedância, não: preencha a tabela Linearização dos injetores da bancada A com os dados de pulso curto do fabricante antes de acertar a lenta e a carga leve: o assistente de mapa base a deixa zerada.
#VE acima de cerca de 115 %
Teste de sanidade: se a VE que a sonda pede no ponto de melhor enchimento passa de cerca de 115 %, confira a vazão declarada do bico, a pressão de combustível e o sensor de temperatura do ar antes de aceitar a tabela.
Não é um teto. A tabela aceita até 300 %, e o próprio assistente de mapa base nunca gera VE acima de 115 %.
A VE do modelo absorve o erro dos dados. Vazão declarada alta aparece como VE alta; sensor de ar 20 °C mais quente que uma carga a 40 °C pede 6,4 % a mais de VE.
Com álcool, a evaporação pode esfriar a carga abaixo da leitura do sensor, e um valor um pouco acima de 115 % pode ser real.
#Duas rodadas
Mapa muito fora leva mais de uma rodada. Com os padrões, o Aplicar na VE move no máximo metade do que a correção rápida alcança: cerca de 5 % por rodada em vácuo. Um erro maior que o limite da malha não chega a ser aprendido por inteiro.
Por isso, erro grande se corrige pelo log, à mão, em duas rodadas ou mais. O Aplicar na VE é o acabamento.
#Como corrigir
#Medir o necessário
O necessário de cada célula sai do log, num trecho de regime:
VE necessária = VE efetiva × (sonda ÷ alvo) × (1 + enriquecimento ÷ 100)
VE efetiva: canal VE - Eficiência efetiva %, que já inclui a correção da malha.
Sonda: Sonda Malha Fechada / VE, lida depois do atraso. Alvo: VE - Alvo de sonda (O2), em lambda. Enriquecimento: VE - Enriquecimento total, em %.
Use só trechos em regime, fora da zona de pulso curto, fora da cauda da injeção rápida e com o enriquecimento perto de zero.
Como montar essa conta como canal no visualizador e tirar a média de um trecho está em Lendo o log: os canais do VE.
#Mistura entregue e correção da tabela
São dois números diferentes, e podem ter sinais opostos:
ENTREGA = sonda ÷ alvo risco ao motor agora
BASE = sonda ÷ alvo × fator da malha quanto mudar a tabela
Fator da malha: canal Malha VE - Fator da VE (1,000 é sem correção).
Exemplo, com os limites da correção ampliados além do padrão: sonda 0,78, alvo 0,71, malha tirando 30 % (fator 0,70). ENTREGA = 1,099: o motor está 9,9 % pobre. BASE = 0,769: a tabela está 23,1 % rica.
#Pelo aprendizado ou à mão
O aprendizado mede o erro por célula na própria VCU. Com ela conectada, o Commit na VE leva uma fração dele para a tabela: 50 % de fábrica em Percentual a aplicar, só nas células com confiança e sem extrapolar. O passo a passo está em Autoaprendizado: VE learning (LTFT).
À mão, pelo log, ficam o erro maior que o limite da malha, as células de transição e a pressão positiva.
Com os padrões, o aprendizado não aprende de 1,0 bar para cima e a malha corrige ali só +5/−3 %: plena carga com turbo se acerta pelo log.
A sequência prática é esta:
- Erro grande primeiro, à mão, em uma ou mais rodadas, até a correção sair do limite.
- Antes de aplicar qualquer coisa, rode Diagnóstico > Analisar e corrija primeiro o que não é VE.
- Rode em regime nas faixas de uso e leve o que sobrou para a VE com Aplicar na VE.
- Revise a Prévia e a forma da tabela, salve como versão nova, envie e rode um log antes da próxima mudança.
#Uma variável por versão
Cada versão do mapa muda uma coisa: duas mudanças juntas impedem saber qual agiu. Grave-a num arquivo novo, com a versão e o que mudou no nome, e use o mesmo nome dentro do mapa.
Escreva antes do log o que vai considerar aceito e o que conferir na primeira partida: nada está testado até o log do carro voltar.
No log seguinte, confira com Abrir mapa do log que o mapa que rodou é o que você entregou.
O aprendizado não sabe que a VE mudou. Ao mudar VE, eixos, bico ou pressão, leve antes o útil para a VE com Aplicar na VE, envie o mapa e só então use Zerar LTFT. A ordem completa e o porquê estão em Autoaprendizado: VE learning (LTFT).
#Limites do método
- O Aplicar na VE aplica uma fração, só onde há confiança, e só separa erro do bico de erro da VE quando o Diagnóstico acusa a correlação com 1/PW: revise sempre a prévia e rode um log.
- Lenta de bico grande pode não fechar pela VE: pulso curto é do bico, e isso é resultado, não falha do acerto.
- O aprendizado vive na memória da VCU, fora do arquivo do mapa: enviar o mapa para outra VCU não leva o aprendizado.